Alterações da atenção e da memória
São frequentes nos pacientes depressivos as queixas pela diminuição das capacidades de atenção, concentração e memória, causando-lhes graves problemas no trabalho e nas suas actividades quotidianas. Amiúde dizem que não podem ler o jornal nem ver a televisão, menos ainda ler um livro ou concentrarem-se nas suas actividades laborais. Mesmo nas ocasiões mais elementares o seu pensamento segue outros caminhos («quando estou a ver a televisão, penso noutras coisas»), quase sempre pessimistas e negativos.
A perda destas capacidades dá azo a que muitos pacientes depressivos sejam suspensos das suas actividades por incapacidade e porque, nalguns casos, poderia tornar-se perigoso continuarem a desempenhar as suas funções habituais.
Aos pacientes mais gravemente afectados com alterações de atenção e de memória, dever-se-lhes-ia proibir conduzir automóveis e manejar maquinismos implicando risco de lesões. A diminuição da sua capacidade para evitar os perigos, a sua progressiva lentidão psicomotora e uma menor capacidade de concentração justificam estas medidas.
Nalguns casos não há incapacidade para fixar a atenção, mas para a manter. Fazem pequenos esforços para se concentrarem numa tarefa durante algum tempo, mas rapidamente se cansam e desistem.
As alterações de memória também são frequentes neste tipo de pacientes. Além dos esquecimentos habituais (perda das chaves ou do guarda-chuva), os problemas relacionados com a memória podem ser sérios: uma dona-de-casa não se lembra que tem a comida ao lume, uma enfermeira esquece-se dos doentes a quem deve mudar o soro. Em geral estas alterações da memória referem-se a episódios recentes, mas também podem eliminar ideias ou acontecimentos parecendo solidamente fixados no cérebro do indivÍduo. É típico o caso do doente que não se lembra das orações que rezou durante anos e o do que esqueceu os nomes dos familiares mais próximos.
Quando se trata de idosos, estas alterações da memória podem despistar o médico, levando-o a diagnosticar erroneamente demência senil.
Tal como no caso da anorexia, as falhas da atenção e da memória podem piorar durante os primeiros dias de tratamento. Deve-se isto aos efeitos adversos dos anti-depressivos e, por essa razão, torna-se mais necessário convencer o paciente a não omitir as prescrições do médico. Transcorrido certo tempo, o paciente experimentará uma melhoria, podendo reintegrar-se na vida normal. No entanto, não são raras as queixas devidas à falta de memória quando melhora o ânimo do doente: «Não estou como estava, mas tão-pouco possuo a memória que tinha.»