Depressão e álcool
Desde os mais antigos tempos são diversas as civilizações que tiveram no álcool o companheiro de celebrações, tristezas ou angústias. O álcool foi utilizado para provocar a euforia, a tranquilidade e os estados hipnóticos, e a sua presença na vida quotidiana é evidente.
Tão comum e familiar é a relação dos homens com as bebidas alcoólicas que não são poucas as frases, legendas ou refrãos de que é protagonista.
Todos nós ouvimos alguma vez «Vou afogar as minhas mágoas no álcool». Esta expressão estabelece uma clara relação entre mágoa, tristeza, depressão e consumo de álcool. O pior é que o álcool só «afoga» essas mágoas transitoriamente, já que mais tarde elas reaparecem com maior intensidade.
Para além desta peculiar relação, são numerosos os casos de indivíduos (e provavelmente todos possuímos algum próximo) inteligentes, capazes, alegres e com vida equilibrada, que, por causa do seu hábito alcoólico, acabaram tristes e sós. Nestas circunstâncias o álcool não é uma consequência, mas uma causa.
As observações feitas até aqui só confirmam o que já sabemos sob um ponto de vista médico:
- O alcoolismo pode conduzir à depressão.
- A depressão pode complicar-se devido ao alcoolismo.
O deprimido que bebe
A nossa cultura está contaminada por crenças tais como «o álcool dá força» ou «o álcool produz iniciativa». Tendo-as em conta, há ocasiões em que o indivíduo depressivo recorre à bebida. Pensa que nela encontrará a força necessária para sair de uma depressão que, sem álcool, se considera incapaz de fazer. Às vezes, este é o primeiro passo para um({ posterior alcoolização.
O indivíduo depressivo que bebe desta maneira faz parte dos chamados «bebedores sintomáticos». Quer dizer, das pessoas que bebem para aliviar os seus mal-estares da mesma forma que os ansiosos podem beber para se tranquilizar ou os tímidos para vencer os seus complexos.
Por outro lado, comprovou-se que existe um factor hereditário na relação entre a depressão e o álcool. Sabe-se que amiúde os progenitores e os descendentes directos dos alcoólicos padecem de transtornos depressivos. Este facto faz pensar alguns autores que o alcoolismo é mais uma manifestação de um fenómeno depressivo genético.
Outro aspecto que se deve destacar na relação entre depressão e álcool é o das tentativas de suicídio e o dos actos suicidas. Frequentemente o suicídio vê-se precedido da ingestão de álcool. Tal parece dever-se ao facto de o indivíduo procurar nesta substância o «impulso» necessário para cometer um acto que deseja, mas que em condições normais seria incapaz de levar a cabo.
O bebedor que se deprime
As consequências do alcoolismo na vida das pessoas são tão conhecidas que não é raro saber que, no decurso da sua vida, o alcoólico sofre mais depressões que as pessoas não alcoólicas. À margem de considerações sociais e psicológicas, comprovou-se existirem factores bioquímicos explicando uma maior frequência de depressões em pacientes alcoólicos. Segundo parece, o álcool diminui a disponibilidade de serotonina (substância básica para não nos deprimirmos). Isto foi comprovado ao analisarem-se os níveis de 5-HIAA (metabolito de serotonina) no líquido cefalorraquidiano (isto é, no líquido que se encontra no interior da espinal medula) de pacientes alcoólicos.
Álcool e fármacos anti-depressivos
Não é aconselhável que um paciente a quem se administram fármacos anti-depressivos beba álcool.
- Se ao paciente administrarmos IMAOS (inibidores da monoaminoxidase) deve-se ter em conta que as bebidas alcoólicas são ricas em tiramina, uma substância que ao entrar em relação com estes anti-depressivos pode provocar dores de cabeça, crises de hipertensão, isquemias vasculares (isto é, falta de irrigação por constrição dos vasos sanguíneos) e inclusivé derrames cerebrais.
As bebidas com mais conteúdo de tiramina são a cerveja, os vinhos tintos e em especial o vinho Chianti.
- Se ao paciente se administram anti-depressivos heterocíclicos o álcool pode multiplicar os efeitos sedativos de alguns deles. Por exemplo: a clomipramina, a amitriptilina e a imipramina. Isto produz consequências sociolaborais inclusivamente graves.