Doenças somáticas que podem confundir-se com quadros depressivos

Continuando, enumeram-se as doenças médicas que amiúde se podem confundir com quadros depressivos necessitando de um diagnóstico diferencial.

Doenças do sistema endócrino

Hipotiroidismo. Inicialmente,. o hipotiroidisrno costuma ser insidioso e pode associar-se com fadiga, letargia e sentimentos depressivos. Existe a possibilidade de hipotiroidismo quando um doente de mediana idade se fatiga, não tolera o frio e tem a pele seca. A determinação das hormonas tiróideas T3, T4 e TSH confirma o diagnóstico. Por sua vez, o hipertiroidismo ou aumento da função tiróidea, que se manifesta com tremuras, perda de peso ou intolerância ao calor, costuma confundir-se com distúrbios provocados por ansiedade.

Hipoparatiroidismo. Ao diminuir a função das glândulas paratiróides produz-se uma diminuição do cálcio no sangue. Quando isto acontece, aparecem a irritabilidade, a apatia e a tristeza, as quais podem levar a pensar num episódio depressivo. Suspeita-se haver hipoparatiroidismo em indivíduos recém operados na zona do pescoço.

Hiperparatiroidismo. Neste caso a hipercalcemia (excesso de cálcio) também pode mimetizar uma sintomatologia depressiva. Suspeita-se nos doentes com cálculos renais reincidentes, com lesões da mucosa gástrica que sangram ou apresentam alterações ósseas. A hipercalcemia (aumento do cálcio) e a hipofosforemia (carência de fósforo) confirmam o diagnóstico.

A doença de Adison. Chama-se doença de Adison à insuficiência adrenocortical. A sua aparição é gradual e associa-se a prostrações, perda de peso e uma típica hiperpigmentação da pele. Esta doença apresenta-se em adultos de ambos os sexos e é acompanhada de tensão baixa e de uma curiosa apetência de sal.

A doença de Cushing. Recebe este nome o hiperfuncionamento adrenocortical, muitas vezes produzido por um tumor situado no córtex das glândulas supra-renais, provocando um aumento de produção de hormonas adrenocorticais. Ainda que os sintomas psíquicos mais frequentes sejam de tipo ansioso, o mal-estar pode apresentar-se oculto sob um disfarce depressivo. Sintomas característicos deste distúrbio são o aumento de peso, a típica cara de lua-cheia e a corcunda cervical.

Corticosteróides. Sintomas idênticos aos observados na doença de Cushing apresentam-se em doentes tomando durante muito tempo corticosteróides, isto é, substâncias utilizadas no tratamento da asma, do artritismo reumático ou de doenças auto-imunes (isto é, afectando a imunidade).

Doenças do sistema metabólico

Porfiria aguda. Esta doença ataca sobretudo mulheres e está associada a cólicas abdominais, prostração e parestesias (estranhas sensações de formigueiro ou corrente eléctrica). Transmite-se por hereditariedade e a síndroma pode precipitar-se devido ao consumo de barbitúricos, anticonceptivos ou álcool.

Anemia perniciosa. É produzida pelo déficit de vitamina B12. Inicia-se lentamente e é acompanhada de acloridria (déficit de segregação de ácido clorídrico no estômago) e anemia de tipo macrocítico (os glóbulos vermelhos são maiores que o normal). Muitas pessoas padecendo desta anemia apresentam sintomas depressivos, tão intensos nalguns casos que produzem alucinações e delírios susceptíveis de fazerem crer erroneamente um quadro de tipo esquizofrénico.

Doença de Wilson. Este padecimento deriva de uma alteração do metabolismo do cobre, dando lugar a uma exagerada eliminação deste metal pela urina. Inicia-s{(, geralmente, durante a adolescência e, após um processo que o converte em crónico, desemboca numa verdadeira demência. Durante o seu desenvolvimento os sintomas depressivos são frequentes e apresentam-se juntamente com alterações hepáticas, movimentos das extremidades e um anel, chamado de Kayser-Fleischer, podendo observar-se na periferia da córnea.

Tumores

Carcinoma do pâncreas. Os sintomas depressivos são companheiros habituais de qualquer neoplasia (cancro), mas a sua frequência no carcinoma da cabeça do pâncreas é muito mais elevada do que se pensa. Aparece em homens entre os cinquenta e os setenta anos de idade. A astenia e a perda de peso são frequentes nestes casos.

Tumores intracranianos. Alguns tumores cerebrais localizam-se nas chamadas «zonas silenciosas». Não apresentam sintomas de focalização neurológica e quando são de certo tamanho produzem hipertensão endocraniana (dor de cabeça, vómitos, instabilidade e alterações dos movimentos oculares). Amiúde, as suas primeiras manifestações são a astenia (debilidade de contracção muscular) e os vómitos, frequentes sobretudo quando existe tensão e pessimismo. Estes sintomas podem levar a pensar tratar-se de um distúrbio depressivo primário.

Doenças neurológicas

Doença de Parkinson. As pessoas padecendo desta doença também sofrem uma depressão (até 30 e 50 %). Habitualmente a depressão diminui ao melhorar o quadro motor (hipocinesia e hipertonia). Com a aparição da L-dopa desceu o número de parkinsonianos deprimidos.

Esclerose múltipla. Esta doença afecta sobretudo os varões entre os vinte e os trinta e cinco anos e caracteriza-se por remissões e exacerbações espontâneas. Os primeiros sintomas afectam o estado de espírito. Posteriormente, observam-se alterações na visão, na fala e no andamento.

Doenças neurológicas. Como a miastenia grave ou a doença de Huntington, também podem encobrir uma síndroma depressiva.

Fármacos indutores

Anti-hipertensivos. Os sintomas depressivos produzidos pela administração de reserpina foram já percebidos e descritos quando esta se começou a utilizar. E tanto assim é que, da mesma forma que se usaram anfetaminas em altas doses para reproduzir o modelo bioquímico da esquizofrenia, serviu a reserpina para reproduzir o modelo médico da depressão. Hoje este fármaco está em desuso e foi substituído por outros com menor efeito depresógeno. Também podem produzir sintomas depressivos a metildopa, a clonidina e os betabloqueantes.

Quando a depressão é claramente um efeito do tratamento anti-hipertensivo, é possível diminuí-la substituindo o fármaco que a causa. Contudo, há ocasiões em que o mal-estar persiste, sendo necessário tratar a depressão como tal. As alternativas mais frequentes nestes casos são a hidralazina e os diuréticos.

Outros fármacos. Os antituberculosos como a cicloserina e a etionamida também foram identificados como possíveis causas de depressão. Algo semelhante ocorre com os corticóides e os antitiróideos.
A partir dos anos sessenta publicaram-se numerosos trabalhos sobre a depressão associada com os contraceptivos orais (anovulatórios).

Todavia, é provável que a aparição deste mal-estar tenha mais relação com a prévia disposição da mulher em tomá-los (pensamos que algumas mulheres se culpabilizam pelo uso de contraceptivos), ou com factores de índole ocupacional (a depressão é frequente entre as donas-de-casa), que com o fármaco.

Quadro 14

Fármacos produzindo com maior frequência distúrbios depressivos

Reserpina

Corticóides

Clonidina

TRH

Metildopa

Betabloqueantes

Cicloserina

Antitiróideos

Etionamida

Contraceptivos (?)