História da Depressão

Assim como noutras épocas a tuberculose e certas doenças infecciosas ocuparam primordialmente o pensamento de doentes, familiares e médicos, hoje em dia as alterações que produzem maior preocupação são, entre outras, as doenças cardiovasculares, a sida, a ansiedade e a depressão. A maioria destas doenças já existia anteriormente, ainda que não se detectassem com tanta nitidez como hoje ou as alternativas terapêuticas fossem desoladoramente escassas.

Do princípio do século até aos nossos dias, a expectativa de vida aumentou de 49 anos a mais de 70 anos, com o que adquiriu especial interesse não já «quanto» se vive, mas «como». Em relação com «como se vive» alcançou uma importância capital a identificação e resolução dos transtornos depressivos, já que não existe nada pior que continuar vivendo quando não se deseja viver, quando não se experimenta ilusão, prazer, entusiasmo, interesse... Em suma, quando se sente a incapacidade de ser feliz.

Desde que se tem notícias da depressão procuraram os homens uma explicação compreensiva ao «porquê» da doença, já que o «como» e a evolução eram observáveis. Historicamente sempre existiu uma dualidade explicativa.

Por um lado as escolas organicistas - hoje chamadas biologistas - tentaram explicar o distúrbio a partir de erros, insuficiências ou intoxicações de tipo orgânico; daí a explicação clássica da escola grega, que entende a depressão como um excesso de «humor» ou «bílis negra».

Por outro lado, há correntes que tentaram compreender a depressão como uma disfunção cuja origem se encontra para além do puramente orgânico. De facto, hoje falamos de «desânimo» ou «desmoralização» quando queremos utilizar sinónimos da depressão. Esta interpretação da doença como uma alteração do espírito de carácter provavelmente sobrenatural teve notáveis consequências na alta Idade Média e em princípios da Renascença, quando se rotularam de «endemoninhadas» as pessoas com transtornos psiquiátricos, provavelmente muitos deles maníacos ou depressivos delirantes.

Assim pois, entre humores e deuses, nervos e espíritos, cérebro e demónios, sangrias e exorcismos, clisteres e rituais religiosos, foi transcorrendo noutros tempos a sorte - escassa por certo - dos que sofriam uma depressão.

Foi na época da Revolução Francesa e da renovação do espírito humanístico, e com a ideia querida a Pinel de «romper as cadeias dos alienados», que a medicina começou a mostrar",um interesse mais premente pelas doenças mentais, entre elas a depressão.

Durante o século XIX persistiram as interpretações organicistas num afã de identificar e tratar as doenças mentais como qualquer outra doença; a esta época devemos um grande trabalho descritivo e fenomenológico que permitiu classificar e homogenizar os transtornos psíquicos em grupos de pacientes que sofriam sintomas iguais ou muito parecidos. Muitas daquelas descrições continuam hoje a ser perfeitamente válidas.

Em princípios do nosso século, a teoria do inconsciente propugnada por Sigmund Freud pôs em causa muitas conceptualizações preexistentes e concebeu a doença mental como um processo dinâmico e individualizado. Nos últimos anos o grande desenvolvimento das ciências básicas (biofísica, bioquímica, anátomo-patologia ... ) e da psicologia da conduta e cognitiva propiciou novas luzes sobre a génese e o tratamento da depressão.

Concluindo, sabemos muito mais actualmente que nos vinte séculos passados sobre como é a doença e como deve tratar-se, ainda que continuemos sem saber com clareza absoluta porque se produz; ou, mais exactamente, dispomos de respostas parciais e estamos a caminho - em bom caminho, sem dúvida - de conhecer as chaves exactas da doença depressiva.