Tratamento com electrochoques
Poucas alternativas terapêuticas fizeram correr tanta tinta como os electrochoques. Durante algum tempo - felizmente já superado - este tratamento converteu-se mais numa opção política e social que num tratamento médico. Os seus partidários e os seus adversários mostravam-se irreconciliáveis. Os primeiros acusavam os segundos de manter os seus doentes em perpétua insânia mental, aduzindo critérios alheios à medicina, e os segundos criticavam os primeiros por utilizarem esta técnica indiscriminadamente e como instrumento de repressão.
O tempo demonstrou que uns e outros tinham em parte razão. Nem os electrochoques são adequados para tratar todas as doenças psiquiátricas nem são, bem aplicados, uma forma de castigar o doente. Existem indicações claras e precisas para o uso desta técnica.
Como actuam os electrochoques?
Apesar de ser uma das terapêuticas mais antigas em psiquiatria, desconhecemos o seu mecanismo íntimo de acção (argumento usado frequentemente pelos seus adversários), mas supõe-se que a passagem da corrente eléctrica pelo cérebro determina certas mudanças na neurotrasmissão cerebral e que tais modificações determinam uma melhor disponibilidade das substâncias neurotransmissoras.
Quando estão indicados os electrochoques?
• Quando houver depressões com alto risco de suicídio. Neste tipo de depressões os electrochoques serão a alternativa mais rápida, tendo em conta que os fármacos anti-depressivos demoram um mínimo de duas semanas para principiarem a actuar.
Em tais casos os electrochoques só se podem obviar se houver um controlo estrito do paciente, apenas possível dentro de uma instituição adequada. Somente em tal caso se pode permitir que os anti-depressivos produzam algum efeito sem se correr o risco de um suicídio.
• Nos casos de depressões psicóticas. Nestas depressões, acompanhadas de ideias delirantes e/ou alucinações, os electrochoques parecem mais eficazes que os fármacos, se bem que os pacientes também experimentam melhoras se se lhes administram simultaneamente anti-depressivos em doses elevadas e antipsicóticos em doses pequenas ou moderadas.
• Quando não se podem administrar anti-depressivos. As restrições ao uso dos anti-depressivos são cada vez mais raras, pois se produziram substâncias com menores efeitos secundários e supostamente eficazes. No entanto, quando um indivíduo tem uma doença depressiva grave e sofre a causa de uma patologia concomitante impedindo a utilização de anti-depressivos (doentes com bloqueio auriculoventricular e com glaucoma de ângulo estreito, por exemplo), é necessário pensar nos electrochoques como alternativa.
• Quando falham os anti-depressivos. Antes de mais é preciso lembrar que só se pode falar de fracasso dos anti-depressivos quando decorreram seis a oito semanas de tratamento com doses adequadas e sem resultados positivos. Mas ainda assim, em muitas ocasiões é aconselhável mudar de fármaco antes de recorrer aos electrochoques. O mais adequaqo é encontrar alternativa numa substância quimicamente afastada daquela que demonstrou ser ineficaz.
Quando estão contra-indicados os electrochoques
Actualmente, os electrochoques administram-se sob anestesia e com relaxantes musculares. Desta forma, eliminaram-se os possíveis riscos de fracturas e luxações.
Contudo, os electrochoques estão contra-indicados no caso de haver:
• um enfarte de miocárdio recente
• tumores cerebrais
• hipertensão intercraniana
• aneurisma da aorta.
Que efeitos secundários produzem os electrochoques?
Os únicos efeitos significativos produzidos são os que afectam a memória. Por exemplo: deficits transitórios actuando sobre a memória recente. Tais efeitos variam de acordo com a idade do paciente, mas, ao fim de quatro ou seis semanas, a memória recupera-se praticamente na totalidade.