Tratamento farmacológico

O conhecimento da fisiopatologia de qualquer distúrbio abeira-nos, no campo da psiquiatria, da descoberta do porquê e do como das doenças sob o ponto de vista biológico.

Durante os últimos anos insistiu-se na necessidade deste tipo de conhecimento, visto ser um modelo científico, objectivo, que se pode avaliar e não corre o risco de ser interpretado de forma diferente por diversas escolas ou pessoas.

O recurso a este caminho apenas se iniciou, e mesmo sendo certo que se atingiram importantes descobertas - sobretudo no âmbito da esquizofrenia, no das depressões e no das crises de angústia - não se pode no entanto negar que estas descobertas são todavia frágeis e, talvez, parte de uma verdade maior.

No caso da depressão, estas bases fisiopatológicas implantaram-se concomitantemente ou após se ter estabelecido o tratamento farmacológico. Por outras palavras, descobriu-se primeiro a substância que as curava, estudando-se depois de que maneira as curava.

Deverá recordar-se que os primeiros anti-depressivos se descobriram por acaso. A imipramina descobriu-se ao investigar-se um antipsicótico (um tranquilizante maior) e a iproniazida quando se investigava um antituberculoso. Ao verificar que estas substâncias eram úteis, pôde-se estudar o seu funcionamento e, a partir daí, observar e inferir qual o seu mecanismo de acção. Com o propósito de evitar grandes explicações académicas e fastidiantes, pode-se dizer, em resumo, que na depressão há basicamente duas substâncias (ainda que provavelmente existam outras) que «não funcionam bem»: a noradrenalina (NA) e a serotonina (5-HT). As duas sintetizam-se, reúnem-se e libertam-se numa célula, a pré-sináptica, atravessam o espaço intersináptico que há entre esta e a posterior e actuam sobre outra célula, a pós-sináptica.

• A síntese de NA e 5-HT realiza-se a partir de aminoácidos essenciais formando parte de uma dieta habitual. Está síntese leva-se a cabo de forma controlada e depende da quantidade de NA e de 5-HT armazenada na célula. Os aminoácidos convertem-se na substância final graças a certos processos enzimáticos.

• A NA e a 5-HT sintetizadas armazenam-se em pequenas vesículas evitando a sua destruição. Cada vesícula contém milhões de moléculas de neurotransmissor.

• Quando foram já armazenadas estas moléculas, um impulso nervoso destrói as vesículas e tanto a NA como a 5-HT são libertadas em direcção ao espaço intersináptico. Uma vez atravessada esta fenda adaptam-se, como a chave e a fechadura, à célula pós-sináptica, graças a umas moléculas chamadas receptores.

• Se a NA e a 5-HT chegam em pouca quantidade à célula pós-sináptica, por um mecanismo de regulação aumentam o número e a sensibilidade dos receptores e, desta forma, capta-se melhor o neurotransmissor. Se, pelo contrário, há excessiva quantidade de NA ou de 5-HT, diminuem o número e a sensibilidade dos receptores na célula pós-sináptica.

Nos nossos dias, supõe-se que a depressão é produzida por:

• Uma diminuição de neurotransmissores NA e 5-HT.
• Uma hipersensibilidade dos receptores.
• Uma combinação de ambos os factores.

Os anti-depressivos actuam de maneira que:

• Aumentam a quantidade de neurotransmlssores.

• Diminuem a sensibilidade dos receptores (efeito que, como vimos, se produz como consequência do primeiro).