Tratamento psicoterapêutico

Não se pode falar de uma psicoterapia dirigida de forma estrita ao tratamento de doenças depressivas. Contudo, há que ter em conta um conjunto de medidas psicoterapêuticas básicas que, unidas à farmacoterapia, vêem multiplicados os seus efeitos.

• É preciso prestar apoio ao paciente e tentar que compreenda o carácter transitório da sua alteração. Há que manejar os seus possíveis sentimentos de culpa tentando suprimi-los na medida do possível. Deve-se fazer-lhe ver que os seus esforços para sair do problema são importantes e necessários, que todos os seus familiares esperam que os ponha em prática e aceitam que não sofre um distúrbio voluntariamente. É necessário lembrar que muitos doentes depressivos julgam que os demais (o grupo, a família e o médico) pensam que não está doente e que se trata de uma situação na qual não põe em jogo toda a sua vontade.

• A auto-imagem e a auto-estima destes doentes costumam estar francamente deterioradas. Por isto mesmo é importante pretender melhorá-las quando se fala dos aspectos positivos tendendo à adaptação do paciente, ou, por outras palavras, reforçar aqueles comportamentos pondo em relevo uma atitude positiva em relação com a cura e representando conquistas mínimas neste sentido. Por sua vez, não se deveria falar deles, ou pelo menos deveria prestar-se diminuta atenção aos aspectos negativos do caso. Haveria apenas de os encarar compreensivelmehte, mas sem lhes atribuir reiterada importância.

• O paciente depressivo tende a isolar-se. Na primeira fase do tratamento, a tendência ao isolamento deveria ser até certo ponto admitida, já que pode ser muito penoso para o doente estabelecer relações interpessoais que em condições normais não seriam problemáticas. Nesta primeira etapa não é conveniente assistir a reuniões ou actos sociais. Mas, uma vez passádos os primeiros dias, se se julga que a famacoterapia começa a ser clinicamente efectiva, a regra pode inverter-se, pois chegou o momento de propiciar e potenciar saídas, mobilizações, relações sociais e, em suma, tudo aquilo que tenda a uma progressão ou a uma resolução do quadro clínico e à restauração de uma imagem correcta.

É, além disso, o momento de gratificar afectivamente e de reforçar, como já se disse, todas as conquistas, por mínimas que sejam, obtidas pelo paciente.

As medidas psicoterapêuticas também incluem o que não se deve jazer. Por exemplo: insistir em que o paciente ponha em jogo uma força de vontade supostamente indispensável ou incutir nele uma atitude duvidosa ou vacilante face às vivências depressivas (de culpa ou de morte) de que padece.

Entre os pacientes depressivos cuja estrutura de carácter ou de personalidade é o parâmetro mais significativo ou, por outras palavras, entre os que costumam ter depressões menores ou «neuróticas» e entre os que têm uma personalidade ciclotímica (com alterações fásicas do estado de espírito), a psicoterapia deve orientar-se para a manipulação e o controlo das variáveis pessoais, ambientais e psicossociais configurando o quadro clínico.
Deve-se recordar que, comparativamente, a farmacoterapia é menos efectiva nestes casos que no dos depressivos maiores recorrentes e no das doenças maníaco-depressivas puras.

É possível que estes pacientes apresentem uma estrutura de condutas repetitivas, tenham aprendido a estabelecer relações interpessoais «negativas» ao longo da sua vida e tenham, enfim, um padrão de comportar:nento em que a sua imagem esteja degradada, se sintam facilmente culpados ou vejam o lado negativo da vida. É óbvio que, nestes casos, a psicoterapia deveria, em todas as suas formas e orientações, tender a desmascarar esta estrutura, fazendo-a consciente aos olhos do paciente e propondo medidas adequadas de mudança.
Obedecer a todas estas regras básicas é o pilar de qualquer psicoterapia no caso dos distúrbios depressivos.

Pelo que actualmente sabemos, pode-se afirmar não existir uma indicação estrita de psicoterapia estruturada e contínua no caso de pacientes depressivos maiores (endógenos, psicóticos e involutivos) e que o médico e o psicólogo deveriam ser os principais artífices na constituição de um ambiente psicoterapêutico adequado, a partir de uma avaliação estrita da situação. Como se pode ver, não significa isto que as medidas psicoterapêuticas sejam de pouco interesse. Pelo contrário: já se insistiu em que a interacção é altamente positiva. Do que se trata, em suma, é de conseguir o ponto médio em que as medidas psicoterapêuticas actuem realmente de maneira potentiadora juntamente com a psicofarmacoterapia, sem se converterem num problema (de tempo, económico ou de complicação psicológica) acrescentando-se à alteração afectiva.

Em qualquer caso, havendo dúvidas, o melhor é recorrer ao especialista para avaliar a necessidade de uma maior ou menor programação psicoterapêutica num determinado paciente.